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|| DreamAchieve || Performance Coaching

Psicologia do Desporto e Performance || Coaching Desportivo e Executivo || Formação

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DORES DE CRESCIMENTO

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Lembro-me tão bem do momento em que o Manaia me ligou, em Dezembro de 2000, para me dizer que me ia subir de escalão. Estava no carro com os meus pais, eu ia na parte de trás, e por coincidência (ou não) estava a passar mesmo em frente ao pavilhão onde treinava... Quando o telefone (na altura tijolo com antena e tudo!) toca! 

 

Ele perguntou-me se eu queria subir de escalão. Eu lembro-me de estar a sorrir tanto, que os cantos da minha boca pareciam que iam rasgar. Respondi "Sim, claro que quero!" num tom emocionado. Também me lembro de ele fazer um comentário qualquer ao meu estado de alegria, que pelos vistos chegava ao outro lado do telefone...

 

Em Janeiro comecei a treinar com as mais velhas, e ao início parece tudo espetacular, até surgirem os desafios. O que muita gente não sabe é que, ao sermos "promovidos" as dificuldades aumentam, a concorrência é maior, os desafios sobem de nível. Isso acontece desde os jogos de consola, até qualquer outro contexto na nossa vida. Subimos de nível, há o momento de felicidade, logo a seguir surgem as dificuldades. 

 

Havia um exercício horrível que o Manaia gostava muito de fazer, de deslizamento defensivo. Era um exercício técnico, porque começávamos a uma velocidade mais lenta, mas depois ia aumentando e tornava-se uma exercício físico. Quando chegávamos à parte da máxima velocidade, acredito eu, tornava-se um exercício mental. 

 

O exercício era duas a duas. A primeira vez que treinei com elas, fizémos esse exercício, fiquei a fazer par com a jogadora mais lenta, e éramos as últimas da fila. Quando chegou a parte da máxima velocidade, ela desistiu. Ficou com as mãos nos joelhos, agachada... Eu também desisti, estava tão cansada que, ao vê-la a parar, pensei que não havia problema. Entretanto as minhas colegas todas já tinham ido e voltado, e nós estávamos ali, em modo de desistência... 

 

Na minha memória ficou isto: o Manaia chegou-se perto, e num tom baixo disse apenas: "Podes chorar, podes gritar, podes morrer... Aqui só não podes desistir. Acabem o exercício." 

 

Fizémos, com muita dificuldade. Mas fizémos. Até ali eu nunca tinha sido desafiada a chegar a tal nível de cansaço. Nunca tinha sido levada a refletir sobre o mau que é desistir.

 

Quando voltámos a fazer o exercício, já num outro treino, troquei de colega. Nas minhas sessões de coaching, falo muito sobre a importância de criarmos à nossa volta, um grupo de pessoas que tenham uma influência positiva nas nossas decisões. Então, fui fazer o exercício da morte com a base principal da equipa, jogadora de cinco inical, e éramos sempre as primeiras na fila. Fizémos o deslizamento defensivo juntas durante os 4 anos seguintes. E todos os outros exercícios que fosse duas a duas.

 

Sempre que éramos levadas ao limite, nenhuma das duas sequer mencionava a palavra desistir, e como éramos sempre as primeiras a acabar, porque éramos as primeiras a começar, havia um certo gozo em superar-nos todos os dias. Foi assim que ganhei o gosto na competição. Foi assim que aprendi a divertir-me no meio de tantos desafios.

Desistir traz arrependimento, sentimento de culpa, impotência, e aumenta a crença de que não conseguimos fazer algo.

 

A dor de continuar é temporária, o arrependimento de desistir é para sempre. 

 

Mesmo que te seja dada a missão impossível, é lindo que chegues ao fim e que a tenhas conseguido cumprir. A arrastar-te, a chorar, a gritar, ou a morrer... Mas sem desistir. 

 

É continuamente não desistindo que ganhamos gosto por ultrapassarmos os nossos limites, e conseguimos sorrir nos momentos de maior dor, porque sabemos que essa dor, são dores de crescimento. É continuamente persistindo que, mesmo no impossível, conseguimos divertir-nos, conseguimos viciar-nos em querer ir ao limite. Porque aquele sentimento de conseguir fazer algo além das nossas próprias capacidades (e até além das capacidades de quem nos rodeia), é o que nos faz ser diferentes da maioria. 

 

A maioria foge da dor... A diferenciada minoria procura-a. Não porque goste da dor, mas porque se viciou nos resultados de ultrapassar essa dor. 

 

No pain, no gain ;)