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DreamAchieve

Psicologia, Coaching PNL e Desporto

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ENTREVISTA: ISABEL RIBEIRO DOS SANTOS

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Esta semana a DreamAchieve teve a enorme honra e prazer de poder conversar e trocar palavras de sabedoria com a Isabel Ribeiro dos Santos. Ex-atleta internacional, atual treinadora, tem também três filhas que são atletas internacionais, e é considerada uma das mães do basquetebol português. 

 

DA: Isabel, conte-nos como foi o seu percurso como atleta, e agora como treinadora?

IRS: Esta é uma pergunta que podia dar um livro, tantos anos tenho de atividade no basquetebol. Mas vou tentar descrever em breves palavras.

Tive a sorte de fazer toda a minha infância num país (Moçambique) onde o clima permitia viver grande parte do dia na rua; onde a única distracção era praticar atividade física, ainda que de forma informal, isto é, bastava um grupo de amigos, uma bola (fosse de futebol ou basquetebol ou outra qualquer) uma baliza ou um cesto “artesanal” para passarmos muitos e bons momentos a jogar. Acho, (tenho a certeza) que estas foram as melhores aprendizagens da minha vida, quer como pessoa, quer como praticante desportiva.

Como se não bastasse, o Basquetebol era a modalidade “rainha” em Moçambique. Tive, também a sorte de ter na escola, professores de Educação Física que tinham uma visão muito avançada sobre a influência positiva que o desporto podia ter nos jovens e que me proporcionaram uma passagem por diversas modalidades até aos 14 anos (9ºano). Como não podia deixar de ser, a minha primeira experiência no basquetebol foi através da minha professora que tinha sido jogadora de basquetebol (internacional portuguesa) Regina Peyroteo.

A partir daí foi o trajecto natural, fui para o Clube (Associação Académica de Moçambique) e tive como treinador aquele que considero dos melhores treinadores portugueses de formação, Diogo Amoroso Lopes.

Como já disse atrás, nós passávamos muito tempo a jogar nos tempos livres (que eram muitos), e de forma informal, e por isso acho que a tarefa do treinador nessa altura estava mais facilitada, porque apenas tinha que orientar técnica e táticamente as aprendizagens que nós de uma forma “selvagem” treinávamos quando jogávamos com os nossos amigos.

Com a independência de Moçambique vim para Portugal, como aconteceu com tantos outros jovens Moçambicanos e Angolanos.

Em Portugal ingressei no CIF que naquele tempo era considerado o melhor clube de basquete feminino. Joguei, ainda, no CIC (Clube Independente de Coimbra), Algés e CDUL. Foram 21 anos a jogar, sempre com a mesma vontade. Fui sempre muito exigente comigo. Não sendo profissional, quis sempre treinar como se fosse, de modo a garantir que estivesse no meu melhor em todas as situações. Para mim, não havia férias, gostava de iniciar cada época sempre um pouco melhor que a anterior.

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Desde muito cedo, decidi que queria ser professora de Educação Física e naturalmente ficar ligada á modalidade como treinadora. Sabia que um dia, teria de deixar de jogar e que a experiência adquirida como jogadora me ajudaria a ser treinadora e a influenciar outras jovens a praticar. E é o que tenho tentado fazer ao longo dos últimos 30 anos de prática como treinadora.

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Como não podia deixar de ser, o que fiz como jogadora é o que tento transmitir como treinadora. Achei que a melhor maneira de iniciar uma carreira como treinadora era começar... pelo principio, e por isso dei início ao basquetebol feminino no Sport Clube Maria Pia, no bairro da Graça em Lisboa. Treinei, iniciadas, cadetes, juniores e mais tarde as seniores. Ao mesmo tempo frequentei os cursos necessários para poder exercer a função de treinador, fui a muitas acções de formação e assisti a muitos treinos dados por outros treinadores que eram referência na altura.

 

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(Atualmente a Isabel é treinadora de seniores femininos do Clube do Povo de Esgueira) 

 

DA: A Isabel é vista não apenas como uma treinadora, mas como uma das mães do basquetebol português, e como uma pessoa que faz parte de momentos cruciais da vida de várias atletas. Qual é a sua mentalidade de trabalho?

IRS: Sou como treinadora o que fui como jogadora e o que sou como pessoa. Nós não conseguimos ser uma pessoa diferente de acordo com o que estamos a fazer e por isso aquilo que transmito a todas as jovens que trabalham comigo é o mesmo que tentei transmitir aos meus alunos na escola e o que transmiti às minhas filhas: o valor do trabalho, da exigência, da superação.

Nós não temos de ser melhores que os outros, mas temos de ter a certeza que estamos a dar o nosso melhor e que cada dia que passa aumentamos o nosso potencial e muito provavelmente estaremos entre os melhores, seja em que área for. Nós somos aquilo que o dia a dia da vida nos obriga a viver, e eu tive que pensar sempre que o amanhã vai ser sempre melhor desde que façamos o nosso trabalho.

 

Como no jogo de basquete a melhor jogada é sempre a próxima, a que passou está feita, seja boa ou má já não há volta a dar. Há que pensar na próxima e que esta seja boa.

 

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DA: Qual o paralelo que faz entre as aprendizagens do desporto, nomeadamente do basquetebol, e os valores que construímos para a nossa vida?

IRS: Eu considero que a passagem pelo desporto e neste caso particular pelo basquetebol é a ”pré-época” (preseason – em inglês o significado é mais forte) da vida.

A experiência desportiva, ajuda os jovens a conhecerem-se. É com os colegas de equipa que riem, choram, amuam, discutem, argumentam e estes sentimentos vão persegui-los pela vida fora em outras áreas da vida pessoal. Com o jogo aprendem a lidar com a vitória ou com a derrota, com a exaltação ou com a frustração, com a persistência ou com a desistência.

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Os jovens enquanto jogam são, como costumo dizer, transparentes, isto é, “autênticos”, e um treinador experiente e atento consegue muitas vezes reconhecer o estado emocional em que se encontra o atleta, e pode ajudá-lo a crescer e a desenvolver uma personalidade forte.

 

DA: Quais as características que mais admira num atleta?

IRS: Carácter. Sem qualquer dúvida. Ao fim de tantos anos a lidar com atletas, posso assegurar que não basta ser boa fisica ou técnicamente para se jogar no alto nível. Isso é muito importante, mas decisivo é ter uma personalidade forte, eu diria mesmo de excelência. O que é isso? Para mim é ser capaz de estar completamente comprometida com o trabalho, constantemente focada nos objetivos, sempre perto do limite da superação, que sabe exatamente o que quer e luta por alcançar.

Aquela atleta que nos olha nos olhos com ar de quem está a receber todos os feedbacks que lhe damos; aquela atleta que nos escuta e a seguir tenta fazer o que lhe pedimos; aquela atleta que nunca vira a cara à luta, mesmo quando já está muito cansada; aquela atleta que não tem medo de falhar porque sabe que só fazendo pode evoluir e assume o erro como uma oportunidade para melhorar. Enfim, aquela atleta que revela determinação, compromisso, respeito e responsabilidade, tem com certeza muitas chances de vencer, mas não só no desporto, em todas as áreas profissionais e pessoais.

Estas, digamos, que são as minhas favoritas.

 

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DA: Relativamente à mentalidade atual dos jovens atletas, o que tem a aconselhar?

IRS: Os jovens, hoje, são bem diferentes. Não são melhores nem piores, são diferentes, porque a sociedade também está muito diferente e isso tem reflexos na forma como eles hoje vivem o dia a dia.

 A sociedade é muito mais individualista (cada um de nós tem o seu carro, a sua televisão, o seu telemóvel, o seu computador, etc.), tudo acontece muito mais rápido (à velocidade de um clic estamos a ver o que se passa no outro lado do mundo, etc.); é muito mais competitiva, e podia enumerar muitos outros aspectos que vieram alterar a nossa vida nos últimos anos. Como em tudo na vida, acho que estas alterações têm coisas positivas como negativas, e nós temos de encontrar o equilibrio necessário para” levar a água ao nosso moinho”.

Relativamente ao basquete, também ele sofreu algumas alterações que obrigam os jogadores a ser fisicamente mais aptos, tecnicamente mais capazes e táticamente mais competentes. Quase como que uma ironia do destino, para se conseguir estes atributos é necessário trabalhar muito mais e melhor. Esta é a parte difícil, pois a maioria dos jovens, com a concordância dos pais, acha que para ser bom atleta basta ir aos treinos.

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 (Isabel foi selecionadora nacional de sub-16 femininos durante vários anos)

 

Existe uma enorme diferença entre treinar e ir aos treinos. Por isso o conselho que gostaria de deixar é que treinar requer compromisso permanente com o trabalho, requer disponibilidade mental para estar no treino, requer paciência para repetir centenas, milhares de vezes a mesma coisa, requer respeito pelas instruções do treinador, requer muitas horas de trabalho.

 

Todos queremos ganhar, mas ganhar dá muito trabalho.

 

Nem todos os jovens estão preparados para ganhar se não são capazes de competir. E a primeira competição deve ser com ele próprio, e só depois com os outros. E mesmo assim nada nos garante que vamos ganhar, pois podem sempre aparecer outros melhores que nós.

 

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Mas se tivermos a consciência tranquila de que fizemos o nosso melhor, já ganhámos.

 

DA: E aos jovens treinadores, se lhes pudesse dar um conselho, qual seria?

IRS: Eu fui 5 vezes campeã nacional como jogadora, mas como treinadora não tenho nenhum titulo de campeã nacional. Mas como tu própria descreves numa pergunta que me fazes “uma pessoa que faz parte de momentos cruciais da vida de várias atletas”, isso representa muito mais que qualquer vitória.

Aos treinadores cabe, hoje, um papel ingrato porque:

- As jogadoras pensam muito em função do “presente” e do “imediato”: quantos minutos jogam, quantos pontos marco, treinei tanto e só joguei aquele tempo e a outra jogou mais do que eu, se não jogo mais vale deixar etc, etc.

- Os pais, hoje, com um papel significativo na vida e nas decisões dos filhos, também muito dependentes do que vêm da bancada: se o filho joga, se passam ou não a bola ao filho etc, etc.

- As redes sociais vieram multiplicar a visibilidade dos jogos, dos resultados e dos jogadores.

- A medida corrente é esta: se se ganha está tudo bem, se se perde está tudo mal.

 

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No entanto, o treinador tem outra visão, sabe que o trabalho que desenvolve pode dar resultados a curto prazo, mas também sabe que nem sempre isso acontece e que não é por isso que se está a trabalhar mal, senão só tinhamos maus treinadores pois só um pode ganhar. Isto pode levar a que os treinadores se sintam pressionados a alterar os seus processos de trabalho, a sua maneira de pensar e ir à procura do sucesso mais imediato.

 

Penso que os treinadores devem em primeiro lugar confiar naquilo em que acreditam, não se deixar influenciar por mensagens mais imediatistas.

 

E sempre que tiverem dúvidas no que estão a fazer que procurem outros treinadores com quem possam refletir, conversar e consolidar os seus conhecimentos.

O caminho mais rápido nem sempre é o melhor caminho.

 

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DA: A DreamAchieve promove a importância de temas de Coaching e Psicologia no Desporto. Os temas variam entre mentalidade, reação ao erro, espírito de equipa, foco, concentração, e outros. Na sua opinião, qual é a importância destes temas na prática desportiva, e na vida quotidiana?

IRS: Eu acho que já disse muita coisa nas respostas às tuas perguntas. Sinto cada vez mais necessidade de ajudar as atletas a escolher o caminho que devem traçar, de ajudar a organizar as tarefas do dia-a-dia, de ajudar a conciliar as tarefas escolares com os compromissos da equipa, de ajudar a decidir sobre o que gostam ou não gostam.

Nos últimos anos tenho promovido, no início da época, uma reunião com as atletas para apresentar um conjunto de intenções e objetivos que pretendemos alcançar. No final da época fazemos um balanço e analisamos a nossa prestação. Parece-me que esta partilha de informação e análise aumenta os pontos comuns e diminui os divergentes.

Gostava mesmo que houvesse uma Nádia Tavares em cada clube que pudesse ajudar os treinadores, os dirigentes, os pais a lidar com estas emoções: o que é pertencer a um grupo, fazer parte duma equipa; ganhar/perder; frustrar/exaltar;  jogar ou não jogar; etc.

 

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 (Umas das coisas que as atletas da Isabel mais se lembram, é que ela nunca dá treinos com apito. O seu assobio característico toma conta das regras do treino.)

 

Em apenas uma frase:

 

Momento mais alto da sua carreira: Como jogadora foi quando representei a Seleção Portuguesa de Seniores no Campeonato Europeu. Era um sonho que eu tinha.

Como treinadora tenho vários momentos altos, mas o que me deu mais prazer foi chegar à Liga Feminina com uma equipa iniciada num projecto de desporto escolar e onde a maioria das jogadoras era fruto desse processo. Sempre acreditei e ainda acredito que é na escola que tudo começa.

 

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 (A Isabel arrancou com um projeto de desporto escolar desde o zero. Começou com iniciadas, e chegou a conquistar um lugar na Liga Feminina com atletas seniores, que formou desde o inicio da sua atividade desportiva. O clube hoje é um dos polos de formação de Lisboa, chamado Grupo Desportivo Maria Alberta Menéres ou GDEMAM)

 

Pessoas mais importantes no seu percurso: Os meus pais em primeiro lugar, por me terem apoiado quando quis jogar basquetebol, num tempo em que o desporto feminino era só a ginástica e a natação. Diogo Amoroso Lopes que foi o primeiro treinador e que soube transmitir-me o gosto pelo jogo de basquetebol.

 

O que mudaria em si: Nada.

 

O que não pode faltar na sua vida: As minhas filhas.

 

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(A Isabel tem 3 filhas que são atletas internacionais. A mais nova, Carolina, atualmente estuda e joga nos Estados Unidos. A filha do meio, Filipa, é formada em fisioterapia e joga pelo CAB Madeira. A mais velha, Joana, é formada em Medicina, e joga no GDESSA no Barreiro. A Joana e a Filipa irão defrontar-se este fim-de-semana, na Final 4 da Liga Feminina, na disputa pelo título de campeãs nacionais

 

Frase que a caracterize: O sonho comanda a vida e esta nunca anda para trás!

 

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