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DreamAchieve

Psicologia, Coaching PNL e Desporto

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ENTREVISTA: MERY ANDRADE

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A DreamAchieve teve o grande previlégio de poder entrevistar Mery Andrade. Além de atleta internacional, até aos dias de hoje apenas duas jogadores de basquetebol portuguesas conseguiram entrar na WNBA, e a Mery foi uma delas. 

 

DA: Mery, conta-nos como foi o teu percurso como atleta, e agora como treinadora?

MA: Comecei a jogar basquetebol na Escola Secundaria de Massamá, numa atividade que havia às quartas-feiras, que se chamava o dia do desporto. Durante o dia, em vez de haver aulas normais, havia várias atividades, e eu destacava-me mais no basquete, apesar de jogar todos os desportos. Nessas atividades, a Sandra Lucas convidou-me para jogar na ESA (Escola Secundária da Amadora). Paralelamente a isso, o meu professor também insistia para escolher um desporto, e apesar de estar na dúvida entre basquetebol e atletismo, acabei por escolher.

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Eu era das que menos tocava na bola, e das que tinha menos tempo de basquete na minha equipa, mas as coisas começaram a correr bem, então depois de três meses de treinos apresentaram-me ao Zé Leite, na altura selecionador, que me convidou para um estágio da Seleção Nacional. As coisas continuavam a correr bem, então nesse ano o Zé Leite ajudou-me a tratar da minha nacionalidade, e no ano seguinte integrei o grupo do Centro de Alto Rendimento de Rio Maior, o primeiro que existiu. Ficámos em oitavo lugar na competição em que participámos, mesmo sendo muito novas.

Depois desse ano no CAR, voltei para a ESA, e fiquei lá durante 4 anos. Foi quando uma das minhas colegas estrangeiras da minha equipa voltou para os Estados Unidos. Ela ao chegar lá integrou uma equipa como treinadora, e em questões de recrutamento de estrangeiras para jogar na Universidade de lá, falou sobre a Ticha Penicheiro e a Clarisse, que tinham estado comigo no CAR, e elas, por sua vez, quando estavam a jogar lá, falaram de mim. Apesar disso as coisas não aconteceram logo, havia interesse do Old Dominion, mas parecia haver indecisão.

Entretanto, num torneio 3x3 que o Carlos Barroca na altura costumava organizar, veio como convidado um dirigente dos Boston Celtics, chamado Rick Fox. O torneio era só para rapazes, mas o Carlos insistiu que eu jogasse. A minha equipa, mesmo tendo-me a mim como rapariga, ganhou o torneio. Isso chamou à atenção o Rick Fox, que me perguntou se eu alguma vez tinha considerado ir para os Estados Unidos jogar. Eu expliquei a situação, que tinha uma resposta pendente, e que estava a aguardar a universidade confirmar o seu interesse. Ele apenas disse: “Dá-me dois dias, que arranjo-te uma universidade.” Assim foi, dois dias depois, ali estava a oportunidade que tanto queria. O engraçado foi que, quando contei à Ticha Penicheiro as notícias, e a primeira universidade soube do interesse da segunda, no mesmo dia tinha as duas universidades a manifestar interesse por mim. Acabei por ir para Old Dominion, que era onde estava a Ticha. Fiquei lá 4 anos, de 1995 a 1999.

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Em 1997 chegámos às finais da NCAA pela primeira vez. Estavam 5000 pessoas a ver, um ambiente incrível, e um momento que ficou gravado para sempre.

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Quando terminei a minha jornada em Old Dominion em 1999 tinha planos de voltar a Portugal, de ser médica pediatra, mas outra coisa surgiu. Formaram a Liga Profissional nos Estados Unidos, a WNBA, e eu decidi experimentar entrar. Havia muita concorrência, porque tinham acabado a Liga Profissional de Inverno nesse ano, então as jogadoras dessa Liga também se estavam a candidatar. Nesses casos sempre ouvimos as mesmas frases… Diziam que era preciso muito trabalho, que não era tão fácil assim, chegar lá e entrar. Na verdade nunca pensei entrar, mas experimentei na mesma.

Tinha 23 anos na altura, jogava com o número 23, e fui a escolha número 23 no Draft no primeiro ano da WNBA. 

 

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Comecei nas Cleveland Rocket, onde fiquei 4 anos, e depois nas Charlotte Sting mais um ano. 

Paralelamente comecei a jogar em Itália na Liga Profissional. Joguei na La Spezia (Liburia) por 2 anos; Pool Colmo, perto de Milão outros 2 anos, onde no primeiro ano ganhámos o Campeonato Nacional.

Depois fui para o Pharb Napoles, e fiquei lá mais 3 anos. No segundo ano ganhámos a FIBA Cup, no mesmo dia que o Papa morreu. Nesse dia não sabíamos ainda se íamos jogar, devido ao sucedido… O ambiente foi muito peculiar, e o dia foi inesquecível.  

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Depois joguei em Veneza, em Umana Reyer por mais 4 anos. No terceiro ano ganhámos a Taça de Itália, e chegámos aos oitavos de final da Euro Liga.

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Depois de recuperar de uma lesão grave no joelho, fui jogar para Lucca perto de Pisa, durante 3 anos. No segundo ano fui jogadora-treinadora, depois do adjunto ter saído do clube. O treinador queria que fosse eu, e assim começou a minha experiência como treinadora, atividade que exerço hoje. Também comecei a ajudar as sub-17 uma vez por semana.

 

Depois retornei a Portugal, e joguei uma época na  Quinta dos Lombos, em Carcavelos, onde ganhámos Supertaça, Taça de Portugal e Campeonato Nacional.

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Voltei ainda para Itália, a Dike Nápoles onde fiz o último ano da minha carreira. Conseguimos chegar às semifinais, apesar de termos começado um pouco mal.

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Além de todas este percurso ainda integrei várias vezes na Seleção Nacional, e somo 133 internacionalizações.

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Quando me retirei do basquetebol começaram as oportunidades para ser treinadora. Tive uma proposta de uma ex-treinadora minha, para vir para San Diego, onde estou agora, para trabalhar como adjunta. O ano passado era a terceira assistente, responsável pelo treino das jogadoras externas, e este ano fui promovida a segunda assistente, e estou responsável pela defesa, pelas jogadoras interiores (postes) e pelo recrutamento internacional.

 

DA: Quem te conhece sempre te descreve como uma pessoa que tem uma energia contagiante dentro e fora de campo, estivesses a passar por bons ou maus momentos. Que tipo de mentalidade te leva a agir dessa forma?

MA: O basquetebol para mim sempre foi um escape para tudo o contrário do que poderia estar a viver fora de campo. Se fora havia stress, problemas ou o que fosse, dentro eu faria tudo para sentir o contrário. Quando treinava ou jogava era só as 4 linhas que importavam. Detesto perder, sou muito competitiva, e quando estou em campo só vejo basquete. Não importa quem esteja a ver, entro em transe, é só aquilo que importa. Fora de campo, é a forma como falo de basquete que determina a minha energia, é como o meu primeiro amor, a minha paixão.

Nos momentos difíceis foi importantíssimo para mim aprender a perder. Quando ganho celebro muito, mas antes quando perdia ficava muito em baixo. Ultrapassar a derrota passou por aprender a analisar o que podia ter feito melhor.

 

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À parte disso, mesmo quando ganho sou bastante crítica de mim mesma. Se sei que não dei o meu melhor é difícil não repetir o jogo na minha cabeça várias vezes. Por vezes até tinha dificuldades em dormir. Estava constantemente a preparar-me mentalmente para melhorar nas várias situações.

 

A única forma que tinha de ficar em paz, era dando o meu melhor. Acho que isso é que me dava aquela energia toda.

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DA: Antes de entrar em campo, fosse para treinar ou jogar, que táticas de concentração usavas, para ter o melhor rendimento possível?

MA: Eu uso muito a visualização. Na escola como aluna, como jogadora e agora como treinadora, uso esquemas e bonecos para ter uma perceção melhor do que quero que aconteça.

Para o basquete também usava e uso objetivos individuais e coletivos. Relembrávamos em conjunto esses objetivos quando as coisas começavam a sair de mão. Tínhamos sempre algum assistente, ou mesmo entre as jogadoras, para nos relembrar dos objetivos. Além de nos manter concentradas, isso também nos faz festejar as pequenas coisas.

Como treinadora gosto de traçar objetivos por período, para que haja mais foco em cada momento, mais do que apenas no resultado final. Digo às minhas atletas que, desde que a regra da divisão das partes do jogo mudou (de duas partes de 20 minutos, para 4 partes de 10 minutos), as coisas até ficam mais fáceis, porque podemos ir medindo esses objetivos num prazo mais curto, e ajustar o que for preciso.

 

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DA: És uma das duas únicas jogadoras portuguesas que jogaram na WNBA. Conciliavas a época nos Estados Unidos com a Seleção Nacional e a Liga Italiana, uma das melhores da Europa, estando constantemente a jogar a um alto nível. Que aprendizagens consideras mais importantes de tantas experiências desafiantes?

MA: A mais importante que tive a jogar como profissional por 17 anos, foi aprender a importância de cuidar do nosso templo, que é o nosso corpo. Não posso pedir ao meu corpo para dar, dar e dar, quando não dou nada em retorno.

Falo muitas vezes com as minhas jogadoras que, depois da universidade, onde as regras são muito exigentes, começas a viver uma vida de “liberdade” que nunca experienciaste antes, então existe uma tendência de fazer o que queremos, mas há que ter cuidado. Gosto muito de todos os assuntos que englobam Nutrição e cuidados físicos, porque aprendi que se queres durar como atleta, tens que te cuidar. Se vires qualquer atleta que tenha tido uma carreira de sucesso e longa, o segredo foi que soube cuidar do seu corpo. Isso implica muita disciplina para o conseguires.

 

Pode nem sempre ser a escolha mais divertida, mas se é o que queres, vale a pena o sacrifício.   

 

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DA: Foste uma atleta que, pode-se dizer, praticou desporto ao seu máximo potencial, ultrapassando dificuldades, lesões, distância da família e outros sacrifícios que atletas de topo normalmente fazem. Infelizmente, muitos atletas, hoje em dia, desistem facilmente. Na tua opinião, quais as razões que levam os desportistas a desistir antes de chegarem a atingir o seu real potencial?

MA: Acho que a motivação tem muito a ver com isso, não só dos atletas, mas também da parte dos treinadores, de saberem lidar com jogadores e personalidades diferentes. É preciso paciência para motivar, os resultados não são imediatos. Em todos os desportos procuram-se muito resultados imediatos, e quando não há, há atletas que são metidos para um canto, e desistem.

Por outro lado, há uma outra questão, quando uma atleta vive para o desporto que faz, é normalmente tem um certo perfil. É alguém que teve que aprender a lutar pelo que queria, ou um atleta que veio de poucas condições e sabia que nada lhe seria dado, ou também uma pessoa com valores familiares altos. Nestes casos têm mais possibilidades de ter a mentalidade para continuar a lutar. Há vários exemplos, Cristiano Ronaldo, o Ronaldinho, e outros.

 

Porque existe mentalidade de sobrevivência.

 

Hoje por vezes, os jovens estão habituados a ter tudo, e quando isso não acontece, desistem, porque não têm paciência para os resultados não imediatos.

Eu acredito que se tens uma habilidade que Deus te deu, tens que a usar, senão acabas por fazer algo mediano, como um trabalho das 9 às 5, que hoje em dia nem sequer te garante assim tanta segurança. Quando tens um objetivo, um talento, deves lutar, é isso que te traz uma vida independente e melhor.

 

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DA: A DreamAchieve promove a importância do Coaching e Psicologia no Desporto. São abordados temas relacionados ao comportamento, motivação, mentalidade, superação, espírito de equipa, comunicação, e muitos mais… Na tua opinião, qual foi a importância destes temas na tua prática desportiva, e hoje na tua vida?

 

Ajudaram-me muito na concentração, quando as coisas ficavam difíceis. Há uma frase em inglês que diz:

 

“When the going gets tough, the tough gets going.”

 

Ou seja “Quando continuar fica duro, os duros continuam.”Tínhamos momentos muito duros, de grande esforço, de simularmos situações extremas para vermos como reagíamos. Momentos determinados dos treinos, de preparação para os finais dos jogo, em que não podíamos falhar lançamentos, senão enchíamos.

E lembro-me da minha treinadora dizer frases que nos faziam pensar muito nesses momentos, como “Temos que continuar fortes, mesmo quando não nos sentimos fortes”, ou “Não importa como começa, importa como termina”… Depois em situações de jogo, ela dizia essas mesmas frases, e eu lembrava-me do que tinha passado nos treinos. Quando isso vinha à minha mente, recordava que já tinha passado por pior, e isso ajudava-me a superar certas situações em competição.

Uma vez li um livro chamado “Think like a Champion”, um livro escrito por um treinador com um apanhado de historias dos seus atletas. Numa das histórias ele contava como depois de um jogo, os atletas queixavam-se que tinham perdido porque o pavilhão era escorregadio, e as bolas eram tão más que quase não saltavam. Ele contou que nesse momento pediu desculpas aos seus jogadores, porque a culpa era dele, de não lhes ter preparado para o pior. Depois disso meteu-lhes a treinar com o piso escorregadio, e com bolas de má qualidade. Eles aprenderam a superar o pior, e agora não havia desculpas para não darem o seu melhor.

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A parte psicológica resolve o jogo quando as coisas estão a chegar ao momento de decisão.

 

A parte tática pode estar treinada, mas se não tiveres mentalmente preparada para meter a bola no cesto, não serve de nada.

Sempre adorei aprender, e lembro-me perfeitamente de ter tido oportunidade de aprender com um Psicólogo do Desporto, quando estava na WNBA em Cleveland, vários exercícios de treino de espírito de equipa, por exemplo.

Atualmente também se fazem vários Clinics (temos um agora brevemente, nas finais) onde esses temas são sempre abordados. Não são só as aprendizagens táticas que são importantes, mas também as mentais e psicológicos. Para mim é espetacular. Fala-se muito sobre como motivar, importante para o que falava acima, das questões da nova geração.

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DA: Se pudesses dar um conselho a todos os atletas que te admiram, o que seria?

Aproveitar enquanto dura. O que fazemos no desporto tem uma data de inicio, e uma data de fim. Algumas pessoas inconscientes, como eu, podem fazer durar mais (risos), mas devemos sempre pensar que cada dia que passa está também mais perto do fim. Devemos sempre celebrar cada momento, viver cada momento, como se estivesse a acabar. Só assim podemos valorizar cada experiência.

 

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Completa as frases:

7- O momento mais alto da minha carreira foi: Cada momento é o mais alto nesse momento. Final da NCAA foi o mais alto, WNBA foi o mais alto, Euro Cup foi o mais alto! Cada momento teve o seu alto.

 

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8- As pessoas mais importantes no meu percurso foram: A minha família: A minha mãe, que teve a coragem de lutar por uma vida melhor para nós; a minha avó que ajudou a criar-me, o meu irmão Carlos Andrade, com quem tenho uma ligação enorme e estamos sempre em sintonia.

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Depois o Zé Leite, que é o meu pai do basquete, o Vasco (ESA), Álvaro Saraiva , Isabel Ribeiro dos Santos, Coach Larry, Dan Hughes, Mirco Diamante e Stefano Michelini.

 

9- O meu lugar preferido no mundo é: Campo de basquetebol.

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10- Na minha vida não pode faltar: Amor.

 

11- A frase que melhor me caracteriza é: Mandei fazer uma t-shirt com a frase:“Jesus, Just Praise Him”

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Porque quando andamos nestas andanças por tanto tempo como eu tenho andado, ao ponto de estarmos tanto tempo sozinhas e às vezes duvidarmos se devemos continuar ou não, acho que chego ao ponto de dizer a mim mesma “Just Pray about it”, ou seja, apenas orar sobre o assunto. Até agora não tenho razão de queixa.

 

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