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|| DreamAchieve || Performance Coaching

Psicologia do Desporto e Performance || Coaching Desportivo e Executivo || Formação

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QUANDO OLHAR PARA TRÁS É BOM

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Diz-se, e eu também digo muitas vezes, que não devemos olhar para trás. Em muitos contextos isso encaixa-se na perfeição, porque a maioria das vezes em que alguém está a olhar para trás, perde o foco do que está à sua frente.

 

Mas tudo é relativo. Tudo depende. E olhar para trás pode ser bom. Pode, dependendo da forma como percecionas toda a situação, ajudar-te a perceber para onde queres ir.

 

Quando tinha 21 anos torci o joelho num treino. Soube na hora que não era coisa boa. Depois de fazer o exame veio o resultado a dizer que o meu ligamento cruzado (e não só) estava roto. Traduzindo, tinha que ser operada e esperava-me uma recuperação de 6 meses. Ia perder a seleção nacional pela primeira vez. Foi difícil mas eu não olhei para trás. Naquele caso nem valia a pena.

 

Fui operada. Recuperei. Fiz fisioterapia durante meses, todos os dias, 4 a 5 horas por dia. Piscina, ginásio, trabalho específico... Estava pronta para recomeçar.

 

Voltei aos campos, mas de tempos a tempos vinham as dores. Era normal, pensava eu. Pelo menos estava a ganhar forma, a recuperar os meus movimentos, sem medo de fazer certas coisas. Mas constantemente tinha de parar um ou dois dias por causa de dores.

 

Essa época passou assim. On e Off. Até que no Verão seguinte voltei a fazer fisioterapia. Queria recuperar totalmente. Sempre a olhar para a frente, esqueci a época que não me tinha corrido assim tão bem...

 

Depois do Verão vem a primeira semana de treinos, e acontece-me algo que não me tinha acontecido nunca... O meu joelho incha de tal forma que nem o consigo dobrar. Até vermelho estava do inchaço.

 

Fui ao médico. Nova ressonância. Novo resultado. Não queria acreditar...

 

Só para quem ainda não me conhece possa entender... Eu respirava basquete, eu comia basquete, eu vivia e amava basquete. Eu dizia que ia jogar até ter que trocar a bola por uma bengala. Se não estava a jogar, estava a treinar, ou então estava a ver jogos na televisão. Era a minha identidade, era onde me sentia eu, onde me sentia capaz de qualquer coisa. Era a minha segurança. Aquele campo era o meu local de paz.

 

Naquele dia, aquele médico acabou com tudo isso. Tinha ficado sem cartilagem durante a época, e até podia ser operada, mas nunca voltar a treinar e a competir ao nível em que estava, nem com a intensidade e regularidade com que o fazia.

 

Olhei para a frente. A primeira pergunta que faço é: "Quando é que me pode operar? Vamos despachar isto!"

 

Quando cheguei a casa, não aguentei. Desmanchei-me em lágrimas. Mas limpei-as e fui, sempre a olhar para a frente.

 

Eventualmente entendi que não tinha futuro no basquete. Que não ia conseguir ser tudo aquilo que sonhava. E se não ia ser aquilo, não queria ser nada. Então abandonei a modalidade, e olhei para a frente. Fiquei cerca de 4 anos sem ver basquete.

 

Mas foi há cerca de um ano e meio, quando alguém me incentivou olhar para trás, quando alguém me fez contar a minha história, que a minha ficha caiu.

 

Desde que tinha deixado os campos, não sabia o que queria da minha vida. Andei de objetivo em objetivo sem nunca sentir-me realizada. Quando isso acontece, o sentimento de frustração e conflito interno é enorme. Discutia muito, arranjava problemas... Não estava bem, não sabia muito bem o que me fazia feliz.

 

Um dia alguém me fez olhar para trás. Quando comecei a rever a minha história, e perceber que tipo de pessoa era quando era atleta, percebi que a Nádia não estava aqui, tinha ficado algures no passado.

 

Foi importante para mim olhar para trás. Meti-me a ver jogos antigos, e vi a alegria, a confiança, o ligeiro ego, a luta e a garra, a vontade, a certeza... Coisas que eu já não sabia o que era. Nem que tinha sido.

 

Quando me fizeram contar a minha história, foi com a seguinte pergunta: "Quando é que foste mais feliz, e porquê? O que perdeste pelo caminho? O que podes recuperar? O que podes fazer hoje com tudo o que aprendes-te ao longo dos anos no desporto?"

 

É por isso que hoje estou aqui. Rodeada de atletas. Rodeada de pessoas que se querem superar. Essa sou eu. Sou pessoa de estar sempre a olhar para o que posso fazer melhor. E sou pessoa de falar sobre o que podemos fazer melhor em conjunto.

 

A exigência que o desporto pede, não se pode pedir em qualquer lado. A superação e sacrifício que existe neste meio, não se vê em qualquer pessoa. A mentalidade de um atleta é diferente de qualquer outra.

 

Só descobri isso porque olhei para trás com os olhos certos. Não sei, mas se estiveres numa fase em que estás à procura daquilo que te faz feliz, pensa nisto. Pensa se, de tanto quereres olhar para a frente, deixas-te coisas importantes para trás.

 

Às vezes as perguntas certas, ainda que seja sobre o passado, trazem-te respostas que mudam totalmente a tua vida. A minha mudou, e de que maneira.

 

Espero ter-te ajudado.